Por Leandro Vignoli
Gabriel Renner é um sujeito peculiar de visão bem própria das coisas do mundo. Ficou conhecido pelo seu trabalho em quadrinhos com as clássicas tiras Fadas Ltda, e hoje é ilustrador de Zero Hora, o principal jornal do Rio Grande do Sul, onde transita na linguagem formal para o underground com naturalidade ímpar. Entre outros trabalhos, está a capa do DVD do Ratos de Porão e a ilustra da coluna Testosterona, da Sexy. Confira abaixo uma entrevista com o cara. E se você não conhecia, cai dentro.

Como é lidar com essa diferença entre ilustração pra veículo e seu trampo autoral, mais underground?
O trampo de ilustrador paga minhas contas. O de artista alimenta meu ego. Inventei o Estúdio Pinel, onde faço minhas tranqueiras autorais. O primeiro portfólio bacana que fiz não coloquei nenhum trabalho que eu já tivesse publicado. Montei uma pasta só com os desenhos mais malucos, geralmente, desenhos feitos por hobby, descompromissadamente. Pensei que, se fosse pra dar certo, que fosse com algo que fosse sincero e natural. Levei pra algumas editoras e recebi alguns convites pra freelas. E isso começou a mover as engrenagens do meu esquema, a ponto de conseguir definir meu estilo para o “mercado” de maneira mais uniforme e segura, sem me afastar do trabalho underground.

Qual o método na ZH? Você desenha em cima dos textos ou apenas recebe um briefing do assunto?
Em jornal, tem um campo de atuação de ilustração muito grande. Um mesmo ilustrador pode terminar uma caricatura e partir pra um trabalho de reconstituição de crime. Chega um texto sobre como executar uma manobra de Heinrich pro leitor salvar um engasgado e, depois, outro texto de algum colunista. Ambos têm liberdade artística, mas obviamente que no primeiro caso, exige uma linguagem de informação. Então, o desenho tem que sair mais acadêmico, tem que ter esse jogo de cintura, escolher com que calibre atirar.
Como surgiu o trabalho na Revista Sexy? Aposto que muita gente compra a revista só pra ver seus desenhos. (Rá!)
O lance da Sexy foi muito bacana, porque mandei um fanzine pra um cara que, coincidentemente, era redator chefe. A Sexy estava passando por um processo de renovação editorial, e me convidaram pra ilustrar a coluna mensal Testosterona, que ia estrear junto com as novas mudanças. O legal disso é que foi um caso onde o trabalho de artista abriu espaço pro trabalho profissional, e quando ocorre desta forma, já se entra com liberdade criativa total. Ninguém baixa meu desenho da internet quando pirateiam as fotos sensuais, mas já me disseram que compraram a revista pra guardar minha ilustração. Fantástico!

E aquele trampo com quadrinhos, a história das fadas. Ainda continua escrevendo?
Publiquei um tempo, as Fadas Ltda nos jornais do Grupo Sinos e, depois, no Diário Gaúcho, onde foram interrompidas. Com isso, tenho feito as tiras com menos frequência, postado algumas no meu site, mas de forma geral, faço e guardo pra lançar em algum lugar fora da internet, que ainda não sei onde. As coisas andam muito voláteis, acontecem de uma hora pra outra, os sites e blogs já não valem mais nada, o Facebook domina a divulgação, ao mesmo tempo em que acho a rede social meio sem identidade… Hoje, posto um desenho no meu site, no Blogspot, no Flicker e no Facebook, mas ainda parece que falta alguma coisa. Tô tentando entender um processo ideal, mas antes mesmo de perceber isso, já vou estar atrasado de novo. Nesse meio tempo, tenho produzido pra mim mesmo. Então, montei uns fanzines que já estão pra virar algo concreto, depois de organizar. A revista Edição de Fim de Mundo é uma delas.
Que tipo de coisa surge como argumento para as histórias? E os traços, quais as maiores referências?
O cotidiano urbano é a maior referência, tanto em traço, como nos roteiros. A convivência entre as pessoas numa sociedade saturada e domesticada inspira boa pate dos argumentos e dos textos que tenho usado. As tiras do Homem Parasita refletem bastante sobre reações e instintos do ser humano embutido nessa rotina. Me mantenho lendo muita coisa, mas no desenho, não consigo alterar minhas referências principais, que são os velhos desenhos animados da Warner e as tiras do Laerte.

Várias ilustrações são com a temática do rock, e você fez a capa do DVD do RDP. Como foi esse trampo?
A capa do Ratos foi um trabalho que gostei muito de fazer, e tinha uma grande responsabilidade, porque cresci ouvindo a banda e tem muita coisa do Ratos que o Marcatti desenhou. Então, foi uma honra ter recebido o convite. A Blackvomit, que estava montando o documentário, queria mostrar o filme de uma forma diferente e me convidou baseado nessa linha de coisas meio underground que vinha fazendo. Esse lance ajudou a caracterizar o ambiente roquenrol em que já vinha trabalhando e abriu horizontes que me ajudaram a estabecer, de forma mais definitiva, uma identidade pública do meu trampo.
E os projetos futuros?
Agora, montei um site (gabrielrenner.com), onde tô tentando organizar melhor meu trabalho de ilustrador e, até o fim de outubro, vou postar no estudiopinel.com, uma revista online chamada Edição de Fim de Mundo, do Homem Parasita, em função da aproximação de 2012. Passem Lá!